Biografia

Thais Picarte por Joanna Burigo:

 

A Destemida Picarte
Thais e sua história são extraordinárias

Como revela nas boas vindas que dá aos visitantes deste website, Thais faz o que faz com amor e carinho. Mas também com motivação e disciplina: a atleta engajada transpira dando exemplo e inspira resultados. E, com a dedicação e o cuidado que aplica ao que faz, almeja e logra nada menos que excelência.

Thais tem a sorte de um amor não somente tranquilo, mas que vem de uma família que sempre a apoiou. E não apenas ela, mas as três irmãs também eram encorajadas a jogar futebol, o que contribuiu para que ficassem conhecidas como As Temidas Picartes nos campeonatos dos quais inevitavelmente participavam juntas.  Afortunadamente também para nós todos, os pais Fatima e Wagner não permitiram que normas restritivas de gênero impedissem as filhas de praticar o esporte – e Thais conta que o torcedor fanático brincava com ela e as irmãs como se fossem os meninos com quem originalmente sonhara formar uma agremiação familiar.

Ainda muito jovem enfrentou fortes emoções. Aos 14 anos passou no teste para o Aspirantes do São Paulo F.C. tornando-se, oficialmente, atleta de futebol feminino. No mesmo ano perdeu o pai, e então se iniciou a luta da mãe para que Thais continuasse perseguindo o objetivo de ser jogadora profissional, em memória de seu maior fã.  

Thais  joga na mais ingrata das posições do futebol, onde qualquer erro é gol. E ela afirma gostar da responsabilidade de ser goleira, o que inclui transmitir confiança para suas companheiras de time.  Acontece que nem sempre foi assim. Thais queria mesmo ser goleadora, mas sendo muito alta e destemida, era frequentemente escolhida para o posto máximo da defesa. Suas performances frente à rede acabaram por surpreender a todos – incluindo ela mesma – e a carreira se definiu. O currículo que fez desde então é formidável, e estou segura de que não foi somente seu abundante talento o que o construiu.

Depois de dois anos como aspirante Thais passou a integrar a equipe principal do São Paulo E.C., e já no ano seguinte conquistou seu primeiro grande título, a Paulistana de 1999. Depois disso veio uma sucessão de contratos: no Clube Atlético Juventus, no Palestra de São Bernardo, no italiano Lazio Calcio Femminile, no Sporting Club de Huelva e Levante Unión Deportiva na Espanha e, de volta à terrinha, na Desportiva Vitória de Santo Antão, tendo antes disso também passado um tempo na França, onde treinava com a equipe Association Sportive Yzeure.

Em 2006 foi convocada para a Seleção Brasileira de Futebol Feminino, realizando assim seu sonho, o sonho de sua família, e o de tantas meninas que aspiram ocupar o panteão das estrelas do futebol. Thais brilhou com a equipe nacional em 2011 na Copa do Mundo da Alemanha e, no mesmo ano, também com elas, participou dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Ainda em 2011, já tão repleto de realizações desportivas, foi bicampeã pernambucana jogando pela Associação Acadêmica.

Em 2013 e com a equipe do A.D. Centro Olímpico saiu vitoriosa do primeiro Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino a ser realizado com a chancela da CBF. E essa não foi a última vez que Thais fez História: recentemente ela e as colegas do Huelva foram as primeiras mulheres a jogar no estádio espanhol Nuevo Colombino. Em 2013 foi campeã do Valais Cup e saiu do torneio não apenas com o título, mas com o prêmio de melhor goleira do campeonato. Neste mesmo ano, defendendo o Brasil, subiu ao degrau mais alto do pódio do Torneio Internacional de Brasília.

Em setembro de 2014 participou do seu terceiro Sul Americano, do qual a Seleção saiu vitoriosa e classificada para Copa do Mundo do Canadá 2015 e para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. No ano seguinte foi para o São José E. C., com quem conquistou o primeiro lugar no Campeonato Paulista, e desde 2016 está de volta aos braços, mãos e luvas do Huelva, jogando novamente na disputada Liga Espanhola.  

Foi neste mesmo ano que nos conhecemos pessoalmente. Participávamos então de um treinamento intensivo em São Paulo, organizado pelo Guerreiras Project, coletivo de atletas, acadêmicas, artistas e ativistas do qual fazemos parte. O projeto utiliza a linguagem universal do futebol como ferramenta para estimular diálogos e debates sobre gênero, um tema espinhoso cuja abordagem pacífica e esforço de mudança requerem não somente estratégia, mas conhecimento profundo acerca de suas causas e efeitos. Desde 2012 participa do projeto como Embaixadora, realizando oficinas e clínicas, função que cumpre na certeza de estar expandindo o legado dos próprios pais ao estimular a inserção de meninas e mulheres nos campos do jogo mais bonito do mundo.

Ela diz que desde então se sente uma ativista, mas acredito que seu trabalho anterior já apontava nessa direção. Thais não tem medo de falar a verdade sobre o futebol de mulheres, e não perde nenhuma oportunidade de salientar o machismo que assombra a categoria. Nas intervenções que faz em prol da inclusão delas no futebol, certifica-se de que sua presença entre as jovens com quem trabalha sirva como inspiração, para que novas guerreiras continuem batalhando por, e conquistando, ainda mais espaços.

Seus perfis nas redes sociais são recheados com exemplos de sua disciplina, trabalho duro e motivação. E nas entrevistas, debates e mesas-redondas de que participa Thais  tampouco se acanha para revelar as dificuldades enfrentadas por mulheres que ousam ocupar os campos. Confiante, ela expõe a ausência de apoio institucional, suporte financeiro e estrutura profissional com que sofre a modalidade.

Tendo vivido em tantos lugares, reconhece que o machismo sul-americano é um dos maiores obstáculos no caminho das mulheres. Thais tem formação em Educação Física, curso que sua carreira no futebol financiou, e sua experiência e intelecto, aliados ao seu indiscutível sucesso profissional, permitem que discorra igualmente sobre as glórias e tragédias do futebol feminino – sempre com dados, didática e muita, mas muita elegância.

A atleta Thais é a materialização do conceito de excelência. Como goleira, é sinônimo de competência, empenho e sucesso. Mas a mulher que é Thais, em sintonia com a história que continua a constituir, é verdadeiramente extraordinária.


Joanna Burigo é fundadora da Casa da Mãe Joanna e escreve regularmente para Carta Capital.